No ano 64 d.C., apenas três décadas após a Ressurreição de Cristo, a comunidade cristã em Roma crescia na clandestinidade. Alimentada de perto pela pregação dos apóstolos Pedro e Paulo, essa primeira geração de fiéis eras formada por uma misturas de classes: escravos, libertos, cidadãos comuns e alguns membros da aristocracia romana. Ele se distinguiam pela prática da caridade e, principalmente, pela recussa absoluta em adorar os deuses pagãos ou prestar culto divino ao imperador Nero.
A história dessa comunidade mudou drasticamente na noite de 18 de julho daquele ano, quando o Grande Incêndio de Roma destruiu a maior parte da capital. Diante da fúria da população, que suspeitava que o próprio imperador tivesse ordenado o incêndio para reconstruir a cidade, Nero encontrou nos cristãos o bode expiatório ideal. Ele os acusou formalmente pleo desastre, desencadeando a primeira grande perseguição oficial do Império Romano contra a Igreja.
A prisão dos fiéis foi em massa. A guarda imperial invadiu lares e locais de oração, arrastando centenas de pessoas para os cárceres. Nero transformou a execução desses cristãos em um espetáculo público nos seus jardins privados e no circo localizado na Colina do Vaticano. Os relatos históricos e a tradição cristã registram que os prisioneiros enfrentaram o julgamento e a morte com uma dignidade que impressionou a própria população de Roma. Em vez de maldições, os condenados entoavam salmos e orações enquanto era levados ao sacrifício.
Os métodos de execução foram cruéis. Muitos costurados em peles de animais selvagens e lançados às feras na arena para serem despedaçados por cães. Outros foram crucificados ao longo dos caminhos dos jardins imperiais, sofrendo o mesmo martírio de Jesus. Ao cair na noite, os cristãos restantes eram amarrados a postes elevados, cobertos com piche e resina, e incendiados vivos. Seus corpos em chamas serviam de iluminação para os passeios noturnos da carruagem de Nero.
O historiador Tácito regisgrou em seus escritos que a violência extrema contra os cristãos acabou despertando um sentimento de profunda compaixão no povo romano, que percebeu que aquelas pessoas estavam morrendo não por terem cometido um crime contra a cidade, mas para satisfazer a crueldade de um único homem. Nenhum dos relatos aponta apostasia; a comunidade manteve-se firme até o fim.
Após o massacre, os sobreviventes recolheram secretamente os restos mortais e as cinzas dos mártires, sepultando-os em covas rasas na própria Colina do Vaticano, perto local das execuções - a mesma região onde, pouco tempo depois, o apóstolo São Pedro também seria martirizado ao sepultado, e onde se ergue a sua Basílica.
Embora os nomes da maioria desses homens e mulheres tenham se perdido na história, a Igreja preservou a memória coletiva dessa "vasta multidão" anônima. A festa litúrgica dos Santos Promártires de Roma é celebrada no dia 30 de junho. A data foi escolhida para suceder imediatamente a Solenidade de São Pedro e São Paulo, deixando claro que a Igreja não se construiu apenas sobre a liderança dos grandes apóstolos, mas também sangue e o testemunho silencioso de seus primeiros fiéis.

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