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quinta-feira, 5 de março de 2026

SÉRIE SANTOS CASADOS - A SANTIDADE NO MATRIMÔNIO AO LONGO DOS SÉCULOS.

SANTA ADELAIDE e LOTÁRIO

Santa Adelaide é uma santa que foi casada não uma, mas duas vezes, certamente, uma rara exceção. Nasceu em 931, filha do Rei Rodolfo II da Borgonha, e de Berta, filha do duque Burcardo da Suábia.

Sua sina foi a mesma de muitas filhas nobre e, logo aos seis anos de idade, ficou noiva do Rei Lotário, da Itália. Em 947, com apenas dezesseis anos, casou-se com ele. Desta feliz união nasceu uma menina de nome Ema, que mais tarde casou-se com Lotário II, o rei dos francos e último dos reis carolíngios, e foi mãoe de Luíz V.

O casamento de Adelaide e Lotário da Itália furou apenas três anos, pois ele morreu em 22 de novembro de 950, supostamente envenenado por seu poderoso oponente, o margrave Berengário III de Ivrea. Adelaide tinha apenas dezenove anos quando enviuvou. Ela era conhecida por ser uma jovem bonita, inteligente e piedosa, e logo Berengário, rival de seu esposo morto, pediu-lhe a mão, não para si, mas para seu filho Adalberto, com quem Adeleide deveria se casar pela segunda vez. Desta maneira, Berengário queria garantir e, de certa forma, legitimar, a dignidade real que havia usurpado para si. No entanto, Adelaide abominava a ideia de casar-se com o filho do homem que envenenara Lotário, e recusou a proposta, o que a levou a ser aprisionada na fortaleza de Garda, à margem leste do Lago Garda, e sofrer todo tipo de maus-tratos. Martinho, fiel capelão de Adelaide, ajudou-a a fugir em segredo, e com o auxílio dos amigos de seu falecido esposo conseguiu chegar ao Castelo de Canossa, que Berengário tentou furiosamente sitiar, mas sem obter sucesso. Isto porque, desde seu refúgio em Canossa, Adelaide conseguiu pedir ajuda ao Rio Otão I, que marchou com seu exército sobre os Alpes, venceu Berengário, destronou-o e corrou-se em Pavia como rei dos lombardos.

Adelaide foi, então, a Pavia, agradecer ao seu benfeitor. O Rei Otão I, cuja primeira esposa, Edite, havia falecido em 946, impressinou-se com a beleza e o caráter de Adelaide, e pediua sua mão. No Natal de 951, ambos se casaram, em Pavia. Ela viveu como real consorte ao lado do rei e, em 962, quando ele foi coroado soberano de todo o Sacro Império Romano pelo Papa João XII, em Roma, ela subiu ao posto de imperatriz.

Como imperatriz e rainha, Adelaide teve muitas oportunidades para promover todo tipo de benfeitorias e causas sagradas. Aquela que outrora precisara de proteção agora abria seu coração maternal a todos os pobres e oprimidos, como Santo Odilo de Cluny registra em sua biografia da Imperatriz Adelaide, por volta do ano 1000. Ele escreveu non modo auditu, sed visuet experimento ("não do que ouvi falar, mas do que vi e testemunhei em primeira mão"), ou seja, ele tinha uma relação próxima e amistosa com a imperatriz. Adelaide, considerada com justiça "uma das mais nobres e majestosas figuras femininas da história alemã, viveu com o Imperador Otão I uma vida cristá exemplar, da qual nasceram quatro filhos: Henrique, Bruno, Otão (que se tornaria o imperador Otão II) e Matilda, que tornou-se abadessa de Quedlinbur. Além de seus quatro filhos, a Imperatriz Adelaide levou à corte imperial duas filhas do inimigo hereditário de seu primeiro marido e foi-lhes uma mãe protetora e amorosa.

Acima de tudo, Adelaide dedicou-se com muito amor ao seu marido e demonstrou interesse e compreensão quando às suas obrigações como governante. São Odilo, provavelmente a partir de suas próprias observações acerca do casamento e da vida doméstica de Adelaide, refere-se à parábola da esposa Sábia, atendiosa e amorosa do Libro dos Provérbios (31,20-29). Além de suas preocupações matrimoniais e familiares, Santa Adelaide via com bons olhos o movimento de reforma monástica iniciado com Cluny. Ela apoiou a construção de mosteiros em Peterlingen, San Salvatore, em Pavia, em em Seltz (Alsácia).

Depois de morte do Imperador Otão I, seu marido, em 7 de maio de 973, o filho de Adelaide subiu ao trono como imperador Otão II. Infelizmente sua esposa, a princesa grega Teofânia, sentia ciúmes da influência de Adelaide e colocou-o contra ela, inicialmente alegando que estava desperdiçando a fortuna imperial com sua generosidade. A imperatriz e mãe foi banida da corte e voltou à sua terra natal, contudo suportou essas humilhações com a mesma nobre serenidade e modesta grandeza com que, anteriormente, havia se tornado imperatriz ao lado de seu esposo.

O Imperador Otão II percebeu rapidamente o quanto lhe faziam falta os conselhos de sua experiente e confiável corregente, sua mãe, pois todos os seus planos afundaram e qualquer projeto que iniciava logo dava errado. Ele se arrependeu e chamou Adelaide de volta. Com a morte prematura de Otão II (em 7 de dezembro de 983, em Roma - seguido por Teofânia ao túmulo em 23 ou 24 de janeiro de 1002), a sexagenária imperatriz teve de assumir a regência de seu neto menor de idade, Otão III.

Em 994, Otão III iniciou seu reinado e Adelaide voltou à vida doméstica, dedicando seus últimos anos e preparar-se para a morte. Sua promessa derradeira foi uma viagem a Borgonha, sua terra natal, onde prevalecia uma amarga dissidência entre o rei, que era seu sobrinho, e o povo. Adelaide conseguiu restaurar a paz. Em sua viagem, também visitou ao longo do caminho todas as obras que havia fundado e apoiado, para verificar se estava tudo em ordem. Na viagem de volta, Adelaide passou algum tempo na Alsácia, lugar pelo qual tinha especial afeição. Permaneceu na abadia beneditina de Seltz (sua obra favorita) até a sua morte, em 16 ou 17 de dezembro de 999.

Na introdução à mais recente edição crítica latina da Vida da Imperatriz Adelaide, pelo abade Odilo de Cluny, o editor H. Paulhart afirma:

A mãe dos reinos (Mater Regnorum) era o nome como Gerberto D'Aurillac chamava a Imperatriz Adelaide em suas cartas, cunhando assim um termo que traduzia a elevada estima e respeito que nutria por ela, seja como esposa, mãe ou regente. Adelaide descendia da família real de Borgonha e ao longo de meio século exerceu importante papel no destino do império, primeiro como esposa do rei alemão, depois como imperatriz, mãe e avó de dois imperadores. Viúva ainda na juventude, envolveu-se em tumultoosos aconteceimentos no norte da Itália em meados do século X, e então superou essas dificuldades por meio de seu casamento com Otão I, subindo, enfim, ao pasto supremo om império. Após amorte seu segundo marido , seu destino em duas ocasiões posteriores foi assumir a responsabilidade de governar o império por seu filho, que morrera,e por seu neto, até que alcançasse a maioridade. Sendo uma mulher religiosa e fielmente dedicada à igreja, com o passar do tempo Adelaide começou a se sentir inclinada à vida contemplativa. Todavia, mesmo em idade avançada, não recuava de suas obrigações políticas em caso de necessidade. Quando morreu, em 999, espalhou-se um profundo pesr pelos círculos que frequentava.

Nem cem anos se passariam antes que Roma desse as honras do altar a essa imperatriz, então já universalmente respeitada, autorizando o culto que nasceu em volta de sua sepultura, Ninguém menos que Odilo de Cluny, amigo próximo da santa duranta a vida, sentiu-se impelido a louvar sua reputação. Para manter viva a memória de Adelaide, dedicou-lhe uma homenagem por escrito, que ainda hoje é a base mais importante para todos os trabalhos biográficos sobre a santa imperatriz.

Por fim, resta apenas dizer que o Papa Urbano II, ao canonizar Adelaide em 1097, desejou homenagear essa mãe, esposa e regente exemplar, e recomendá-la aos cônjugues de ambos os sexos como um modelo de vida cristã matrimonial.

HOLBÖCK, Ferdinand. Santos Casados: A santidade no matrimônio ao longo dos séculos. P. 87-91, RS: Minha Biblioteca Católica 2020. 

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