A Igreja celebra anualmente, em 22 de agosto, a festa de Nossa Senhora Rainha. Para alguns, essa celebração pode parecer apenas uma devoção mariana delicada e sentimental. Mas, quando contemplamos a realeza de Maria à luz da Sagrada Escritura e da tradição da Igreja, encontramos uma realidade muito mais profunda.
A Bíblia apresenta imagens que ajudam a compreender essa dignidade de Maria. Uma das mais significativas aparece no capítulo 12 do Apocalipse, quando São João descreve um grande sinal no céu:
“Uma mulher revestida do sol, a lua debaixo dos seus pés e, na cabeça, uma coroa de doze estrelas.”(Ap 12,1)
A passagem possui um significado simbólico amplo e está relacionada ao povo de Deus, mas a tradição cristã também reconheceu nessa mulher uma figura de Maria, especialmente por sua relação com o Messias. Ela aparece coroada e está intimamente ligada ao nascimento daquele que “há de governar todas as nações com cetro de ferro” (Ap 12,5).
A imagem é grandiosa. A mulher e seu Filho estão envolvidos em um combate contra o dragão, identificado mais adiante como Satanás. O texto apresenta, portanto, uma realidade que ultrapassa qualquer ideia de uma devoção meramente sentimental: há uma luta espiritual entre o Reino de Deus e as forças do mal.
Maria e a Arca da Aliança
Pouco antes da visão da mulher, no final do capítulo 11 do Apocalipse, São João contempla uma cena igualmente significativa:
“Abriu-se então o templo de Deus que está no céu, e apareceu no seu templo a Arca da sua Aliança.”(Ap 11,19)
A Arca da Aliança ocupava um lugar central na fé de Israel. Ela estava associada à presença de Deus no meio do seu povo e era considerada um dos objetos mais sagrados da Antiga Aliança.
O livro do Apocalipse apresenta imediatamente depois a visão da mulher revestida de sol. Essa proximidade levou a tradição cristã a contemplar uma relação entre as duas imagens: Maria é vista como a Arca da Nova Aliança, porque trouxe em seu ventre não as tábuas da Lei, mas o próprio Verbo de Deus feito carne.
Essa interpretação encontra outros paralelos no Evangelho de São Lucas.
Quando Maria visita sua prima Isabel, o pequeno João Batista estremece de alegria no ventre de sua mãe. A cena pode ser contemplada à luz do episódio em que o rei Davi dança de alegria diante da Arca da Aliança.
Assim, a tradição cristã percebe uma profunda continuidade entre a Antiga e a Nova Aliança: aquilo que a Arca representava no Antigo Testamento encontra em Maria uma realização muito mais elevada, porque ela se tornou a Mãe do próprio Salvador.
Uma Rainha envolvida na batalha espiritual
A realeza de Maria também precisa ser compreendida à luz de sua união com Cristo.
Em seu Magnificat, Maria proclama que Deus “derrubou dos tronos os poderosos e exaltou os humildes” (Lc 1,52). Seu reino não segue a lógica do poder humano.
Maria não luta com as armas do mundo. Sua força está na fé, na humildade, na obediência a Deus e no amor.
É nesse sentido que podemos compreender a linguagem de batalha presente no Apocalipse. A luta espiritual não é uma convocação à violência, mas um chamado à fidelidade a Deus diante do pecado e do mal.
De que lado estamos?
Essa dimensão da festa de Nossa Senhora Rainha pode nos levar a uma pergunta muito pessoal.
De que lado estamos na grande luta espiritual?
Santo Inácio de Loyola, nos Exercícios Espirituais, apresenta a conhecida meditação dos “Dois Estandartes”, na qual o cristão é convidado a contemplar duas realidades opostas e a escolher sob qual estandarte deseja viver.
A pergunta continua atual.
Nossa vida não é indiferente. Todos os dias fazemos escolhas entre Deus e aquilo que nos afasta dele; entre a verdade e o erro; entre o amor e o egoísmo; entre a graça e o pecado.
Celebrar Nossa Senhora Rainha é também recordar de que lado queremos permanecer.
Queremos viver sob o estandarte de Cristo, acompanhados por sua Mãe? Queremos combater o pecado não com violência, mas com a força da fé, da caridade, da oração e da verdade?
Essas perguntas estão muito longe de uma devoção meramente sentimental.
A festa de Nossa Senhora Rainha nos recorda que Maria está inseparavelmente unida ao seu Filho e que toda verdadeira devoção a ela deve conduzir a Cristo.
Ela é Rainha porque é a Mãe do Rei. E sua maior alegria é conduzir seus filhos ao encontro daquele que é o verdadeiro Senhor e Rei do universo.
Nossa Senhora Rainha, rogai por nós!
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